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Choro, emoção e paciência: adaptação dos surdos que ouvem pela 1ª vez

Implante coclear permite estímulos sonoros para que tem surdez avançada a ponto de conseguir ouvir. Crianças precisam se adaptar à realidade


Por Jade Abreu / Metrópoles


Moisés Ferreira tinha 4 anos quando ouviu o barulho de um trovão pela primeira vez. Foi também nessa idade que descobriu que o som da voz da mãe era diferente da do pai e, aos poucos, tem sido apresentado a um mundo sonoro, com ruídos, buzinas, estrondos e música. O menino é surdo, com uma deficiência auditiva profunda, mas conseguiu fazer implante coclear, que repara a função auditiva e, assim, permite com que receba estímulos sonoros.


Moisés é um “surdo que ouve” e o desafio agora é diferente: viver em uma realidade com sons a todo instante, e aprender a filtrar o que é ruído de palavra, como um bebê faz, só que sendo uma criança já mais velha.



Enquanto uma pessoa sem deficiência auditiva ouve sons a partir da gestação, aquela com o implante só começa depois que o aparelho tem efeito, conhecido como “ativação”. Esse período varia podendo chegar até um ano após a cirurgia ou nem mesmo ter efeito.

Foi o que aconteceu com Moisés em um primeiro momento. O menino passou pela cirurgia duas vezes, já que a primeira não deu certo. Ele levou cerca de um ano para o implante ser “ativado”. Atualmente, aos 8 anos, a criança tem idade auditiva de uma criança de 4. Isso significa que compreende e fala como se tivesse a metade da idade que tem, porém pensa como uma de 8.


Os passos para adaptação envolvem momentos emocionantes na família, como quando percebem que a criança ouviu pela primeira vez; mas também é necessário ter paciência, porque é um caminho que demora e exige estímulos auditivos constantes para a reabilitação auditiva.


“Eu falava para o meu esposo, para minha família que ele [Moisés] ia ouvir e ia falar. No primeiro dia que ele falou ‘mamãe’ eu chorei. Ele tinha 5 anos, mas estava me ouvindo e ali eu sabia que a vida dele ia ser melhor”, disse Rosilda Ferreira, 51 anos, mãe de Moisés. O menino é a “rapa do tacho”, sendo o quarto irmão de outros muito mais velhos, de 30, 29 e 28 anos.

A família mora no Novo Gama, município goiano no Entorno do Distrito Federal, cerca de 50 quilômetros da Asa Norte, onde Moisés recebe o acompanhamento com fonoaudiólogo e a alfabetização especializada. Os atendimentos são feitos no Centro Educacional da Audição e Linguagem Ludovico Pavoni (CEAL-LP). Rosilda não trabalha para poder acompanhar o filho todos os dias, e recebe apoio pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC).


O Ceal e o Hospital Universitário de Brasília (HUB) são os únicos locais cadastrados pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal para oferecer a reabilitação auditiva. Atualmente, há 37 mil pessoas, de diversas idades, cadastradas no centro filantrópico para receber o acompanhamento.

“São fases iguais as de um bebê”, disse Raquel Oliveira, 32 anos, mãe de Heitor, 5 anos. “Hoje, ele entende o barulho do trovão, do interfone, do cachorro. Ele faz imitação quando late”. Há um ano com o implante coclear, o menino entende as palavras como uma criança de 1 ano. “Está sendo uma emoção. Cada palavrinha que ele fala é um estímulo”, contou Raquel. O menino reabilita a adição, fazendo aula de música.


Aos 10 anos, Maria Júlia tem uma idade auditiva de 5 anos. “Ela ouvia quando bebê, mas tem uma deficiência que é progressiva, então quando chegou aos 3, não ouvia mais”, lembrou a mãe Elisângela Souza. A menina fez o implante aos 6 anos. Depois de um mês de ativação, ela já estava retomando a audição. “É uma emoção muito grande, não sei nem descrever”, destaca a mãe.


“A Letícia ainda não compreende muito do que seria normal para a sua idade, caso fosse ouvinte, e fala ainda de forma bem limitada. Mas quando a gente olha para trás e vê de onde partimos, fica claro que ela evoluiu muito na sua capacidade de comunicação”, explica a servidora pública, Roberta Lima Ferreira, 48, mãe de Letícia, 6. “Não é que a escola vá ensiná-la a falar, mas para uma criança surda que ouve com o apoio de tecnologias, os estímulos auditivos precisam ser constantes e bem aplicados”, destaca.

“Antes, ele só fazia sons de bebê. Agora, só pelo fato de chamar por mamãe já é uma emoção”, contou Raquel Mendonça, 28, mãe de Murilo, 6 – há quatro com implante coclear.


Procedimento feito há 20 anos


O implante coclear é feito no Distrito Federal há 20 anos. A publicitária Gabrielli Bastos Moreira Silva, 22, foi a primeira criança a implantar e receber os estímulos sonoros no Ceal. Ela era um bebê de sete meses quando teve meningite e perdeu a audição nos dois ouvidos. Aos 2, teve acesso à operação e acredita que ter feito o implante foi fundamental para a vida dela. “Eu falo em português, língua de sinais, inglês e espanhol, estou no rumo de conhecer italiano e francês”.


Gabrielli lembra que não passou por preconceito por questões de fala ou de não escutar. “Eu sempre sentava na frente, tive amizades que me ajudavam quando eu não entendia direito e tudo mais, ou quando a minha bateria do aparelho acabava”, lembra. Quando o dispositivo fica sem funcionar, Gabrielli explica que é como: um silêncio sem som. “Acho que é difícil alguém imaginar um silêncio assim, eu sinto vibrações de sons, e por ter memória auditiva eu imagino o certo som que estou presenciando”, detalhou.


Hoje, o aparelho de Gabrielli é um dos mais tecnológicos. O implante tem bluetooth, e ela consegue conectar música e ligações telefônicas sem precisar do fone. O implante tem uma parte interna e externa, conectadas por um ímã facilmente removível. A parte externa funciona como uma antena que capta os sinais sonoros e decodifica para a parte interna transmite a pessoa que usa o dispositivo. “Eu só escuto as músicas dentro cabeça”, explicou.


“Meu implante coclear tem um microfone que fica na orelha e um imã que fica na cabeça. Aí dentro dele tem um processador de bluetooth. Quando eu quero ouvir músicas, ele conecta diretamente no celular, e isola o som em volta”, detalha.


A jovem lamenta o preconceito que existe dentro da própria comunidade surda quando se coloca o implante. “Tem gente que cria coisas que não sabem e acabam assustando pessoas com interesse”. Uma parte da comunidade considera que uma pessoa deixa de ser surda porque usa o aparelho auditivo, o que não é verdade.


Surdez não tem cura


“Não existe cura para surdez”, afirmou a coordenadora da Saúde no Ceal, Cristiane Scardovelli. “Uma pessoa que usa uma prótese na perna, por exemplo, deixa de ser deficiente porque tem esse apoio? Ela precisa então se rastejar para mostrar que é deficiente?”, questionou.


Existe uma janela de oportunidade que geralmente é até os 3 anos para o desenvolvimento da fala. Não existe surdo-mudo, mas pessoas não receberam o estímulo nessa época, por isso que é também uma corrida contra o tempo para oralizar uma criança e garantir uma maior acessibilidade a ela”, ressaltou.

O implante coclear e os aparelhos auditivos são fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde. Neste ano, a Secretaria de Saúde ofereceu 28 implantes cocleares e 2.351 aparelhos auditivos.


No Brasil, há cerca de 300 Centros Especializados em Reabilitação (CER) habilitados pelo Ministério da Saúde. Desses, 143 oferecem serviços de reabilitação auditiva. Além disso, também são disponibilizados 127 Serviços de Reabilitação Auditiva, classificados como Serviço de Atenção à Saúde Auditiva na Média e Alta Complexidade.


“Para ter acesso ao tratamento na Rede de Cuidado à Pessoa com Deficiência (RCPD), o usuário deve procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima de sua residência para avaliação por meio da Atenção Primária à Saúde”, informou o Ministério da Saúde em nota.


“Caso seja necessário, será feito um encaminhamento para uma equipe multiprofissional de um serviço da Atenção Especializada em Reabilitação, que fará o acolhimento, avaliação e um projeto terapêutico de acordo com sua condição clínica”, completou a nota.




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