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Por onde andei

Texto de Tuca Munhoz |


Na quinta-feira passada, feriado de alguma coisa, vi que haveria alguns eventos e cursos na Escola São Paulo de Teatro, onde, há alguns anos, fiz um curso de Palhaço, meio sem graça.


Coloquei na minha agenda, porque se não esqueço, e no dia certo, fui até lá.


Os cursos começariam às 11 horas, e um em especial me interessou.


A Escola São Paulo de Teatro [1] fica na Praça Roosevelt, local onde, aliás, deveria constar, alguma referência à deficiência desse presidente, Franklin D. Roosevelt, 32º. presidente norte americano, que teve poliomielite. Inclusive, na AACD, Associação de Assistência à Criança com Deficiência, que frequentei por muitos anos, havia uma cadeira de rodas, de madeira, que foi utilizada por ele, e que foi doada, após sua morte, a essa instituição, por sua esposa dna. Eleanor Roosevelt, que era, também, prima do falecido.


Ao chegar à Escola, havia um bazar, com uns 20 expositores, com bancas de roupas e objetos usados, tipo hipsters. Não me agradou, e fui embora. Também porque o curso que me interessava, não era naquele horário.


Estava um dia muito bonito e caminhei, (rodei?), em direção à rua Avanhandava e lembrei-me do Museu Judaico [2], fiquei muito curioso em conhecê-lo e fui. Fica bem na esquina dessa rua com a Martinho Prado, bem em frente ao, fechado há muito, Ferro’s Bar [3], certamente o bar que mais frequentei na vida.


A reforma da antiga sinagoga, onde hoje está o Museu, demorou muito anos, e cada vez que eu passava em frente, pensava: não vejo a hora de visitar esse museu.


O grande dia chegou e lá estava eu em frente ao Museu Judaico num belo dia de sol. Nem tudo é perfeito, a entrada acessível se dá por uma plataforma elevatória.


A coisa funciona assim quando o acesso se dá por plataformas elevatórias, temos que chamar algum responsável pelo local, ou pedir que alguém o faça, quando não encontramos ninguém para gritar: ei!! Preciso usar o elevador!!


Mas, em locais judaicos, seguranças abundam, e não foi necessário gritar, bastou um sinal discreto para que um dos seguranças me atendesse prontamente.


A plataforma é de boa qualidade e funcionou direitinho, só me incomodou que o segurança foi junto, o que é estranho, dado que a plataforma é pequena, e fica um tanto apertadinho...


Na entrada há um detetor de metais, e bolsas e mochilas devem passar por ele. A moça, segurança, me perguntou se eu portava algo similar, disse que sim, mas que tanto a bolsinha lateral, quanto a mochila, estavam afixados na cadeira, e que seria difícil tirar.


Foi bem engraçado, ela deu duas voltas em torno da cadeira, me olhando de cara feia, e finalmente me liberou, não sem antes “dar um rádio” para alguém, não duvido que para o Mossad [4], (cujo lema é: “junte-se a nós para ver o invisível e fazer o impossível”).


Bem, acabei entrando por uma porta lateral, mas observei que o tempo todo havia algum segurança na “minha cola”.


O Museu é lindíssimo! Recomendo fortemente que o visitem. Um local muito agradável, as exposições, tanto a permanente, quanto a temporária são belíssimas e muito bem montadas, a edificação tem uma acessibilidade, pelo menos a arquitetônica, de boa qualidade.


Não entendo esse exagero de piso tátil, nós, cadeirantes, ficamos “trepidando” o tempo todo. Eu acho que é um modo que os não deficientes encontraram para a criação de um cisma entre cegos e cadeirantes.

Preciso conversar com algum amigo, ou amiga, cego para saber da acessibilidade comunicacional e do site.


Fui ao café, que é muito bom, e há uma “lodjinha” maravilhosa. Adoro lojinhas de museus e centros culturais.


Uma das seções, pequena, do Museu, é dedicada ao Holocausto. Cita os milhões de assassinatos perpetrados pelos nazistas, apresentando, o assassinato de judeus, obviamente, de comunistas, gays, ciganos, prostitutas etc. Mas, não cita o assassinato de cerca de 300 mil pessoas com deficiência, que foram as primeiras pessoas a serem exterminadas, servindo, com declarações explicitas do então governo nazista, que seriam as cobaias para os testes dos campos de concentração, o chamado “Programa T4” [5].


Fiz questão de deixar um pequeno texto, em caderno próprio do Museu, acerca dessa questão, e vou acompanhar, e cobrar, para que esse fato histórico, importantíssimo, seja incorporado às outras informações sobre o horror nazista.


Mas, a melhor parte foi quando, já na saída, olhando para o prédio do antigo Ferro’s Bar, me dirigi à segurança durona que me “arrodeou” na entrada.


Perguntei a ela se havia algum protocolo especial, preventivo, de segurança, em relação às pessoas em cadeiras de rodas. Um rapaz que estava ao seu lado, identificando-se como o coordenador de segurança, tomou da palavra para me explicar que não existia esse protocolo, e que ele reconhecia como um problema de difícil solução.


Eu, em outras palavras, reivindiquei a “inclusão” das pessoas com deficiência, argumentando que sim, deveríamos ser revistados com toda a seriedade e rigor tanto quanto as pessoas sem deficiência, afinal eu poderia ter uma arma na mochila, ou uma bomba no compartimento de baterias da cadeira.


Cansei de ser “café com leite”.

Ele concordou comigo, dizendo que esse problema já havia sido discutido com seus superiores, (o Mossad, certamente), e até me informou, eu ignorava isso, que houve um combatente palestino, do Hamas [6] , que era, (claro, já era), cadeirante, e que foi duro na queda, organizando diversas operações de combate em território israelense.


Conversamos longamente, inclusive ele conhece o M... outro amigo, que é segurança na Sinagoga...

Quando ainda morava e trabalhava no ABC, tive por um tempo, bastante dificuldade em entrar no Banco do Brasil da rua Sen. Flaquer, pois havia acontecido lá um caso de um cadeirante, não sei se uma pessoa com deficiência de fato, que conseguiu entrar no banco levando armas, que passou então para seus comparsas, que efetivaram o assalto, incluindo o sequestro de uma funcionária.


Até hoje, em algumas agências bancárias, o segurança apenas abre a porta, em que é possível um cadeirante entrar, após a autorização explicita de um gerente. Como eu sou um cara “de boa aparência”, nunca fui barrado, mas já tive momentos bem estressantes.


Ou seja, o problema existe, e deve ser debatido, e nós, pessoas com deficiência, em especial cadeirantes, devemos participar desse debate com maturidade e reivindicar, sim, que existam protocolos de revista e segurança. Assim como devemos também reivindicar, entre outros, protocolos de segurança e evacuação em situações de risco e emergência, que também não existem.


Há uma mensagem, implícita, que diz, caso o prédio for pegar fogo amanhã, não venha trabalhar, pois não haverá como realizar sua evacuação.


Vide: “Em caso de incêndio não use o elevador”.



Tuca Munhoz

São Paulo

Outono

2022


Tuca Munhoz é ativista pelos direitos humanos das pessoas com deficiência, gestor público, político, comunicador e escritor. “Minha história é contar histórias, inventadas, reais, vice e versa e misturadas”, diz Tuca sobre Tuca.

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